Cristina Graeml e as duas formas de fazer política

Em 2024, um fenômeno chacoalhou o tabuleiro político paranaense: a jornalista Cristina Graeml, então no PMB, sem experiência política e sem tempo de TV, obteve quase a mesma votação que Eduardo Pimentel, do PSD, e levou a eleição da Prefeitura de Curitiba para o segundo turno (31,17% dela contra 33,51% dele).

Para quem não está familiarizado com a política paranaense, Pimentel era vice-prefeito, apoiado por Rafael Greca (prefeito de Curitiba e político popular) e por Ratinho Junior (governador do Paraná e extremamente popular). Era a batalha de um império político contra uma candidata praticamente solitária. Só que essa candidata praticamente solitária recebeu o apoio do ex-presidente Bolsonaro (que rompeu o acordo que fizera com o grupo de Ratinho Junior. O vice de Pimentel era Paulo Martins, à época filiado ao PL).

Cristina era uma candidata ideológica e provavelmente herdou votos de protesto. Eu diria que ela é uma bolsonarista raiz. Seu feito foi extraordinário, ainda que Pimentel tenha vencido o segundo turno por uma margem ampla (57,64% a 42,36%). Naquela ocasião, a experiente jornalista usou o caminho do confronto, um dos dois principais meios que vejo para um político avançar na carreira. O outro caminho é o da aliança.

O PSD é um grupo gigantesco e, basicamente, é a direita paranaense. Quando Sergio Moro iniciou sua caminhada rumo ao governo do Paraná, criou uma cisão nessa direita. Passou a existir, de certa forma, uma direita governista e uma direita ideológica (não que o próprio Moro seja um grande exemplo de figura ideológica, haja vista seu afago ao esquerdista Flávio Dino, hoje no STF, provavelmente tendo recebido o voto favorável de Moro).

Moro estava no União Brasil e Cristina se juntou a ele com o objetivo de concorrer ao Senado Federal. Esse grupo durou algum tempo, até que Moro fez um dos movimentos mais irônicos que já vi na política brasileira: filiou-se ao PL. O mesmo Moro que saiu do governo Bolsonaro praticamente acusando o ex-presidente de interferir politicamente na Polícia Federal tornou-se candidato do bolsonarismo ao governo do Paraná.

Moro ganhou como aliado o fortíssimo Deltan Dallagnol e Filipe Barros (PL), ambos candidatos ao Senado. Com isso, Cristina ficou à deriva e seus planos de concorrer ao Senado pareceram mais distantes. Havia três grandes grupos no Paraná. Um era a esquerda, outro era o bolsomorismo. Em mais uma grande reviravolta, o terceiro grupo, o mais forte, abriu as portas para Cristina.

Por seus planos presidenciais (sendo ele o candidato ou não), Ratinho Junior não podia dar palanque para Flávio Bolsonaro. Depois de ver seu maior adversário estadual ser imbuído da força gigantesca do bolsonarismo, Ratinho praticou a política da aliança e trouxe a antiga adversária para seu lado, dando ao próprio grupo uma roupagem mais ideológica, o que tenderia a ser um bom escudo para lidar com o bolsomorismo.

De maneira geral, vejo duas formas de fazer política: enfrentar ou se aliar. Enfrentando, Cristina ganhou tamanho, mas perdeu a eleição. Se aliando, Cristina ganhou a chance de concorrer ao Senado com a força da máquina estadual e de um governador que é aprovado por cerca de 80% do eleitorado.

Moro escolheu ser adversário de Ratinho Junior, Cristina Graeml escolheu ser aliada. Vamos ver se algum deles será bem-sucedido em sua empreitada.

Por enquanto, Moro segue na liderança das pesquisas de intenção de voto, embora Sandro Alex, o candidato governista, esteja no retrovisor (35% a 23%, segundo a Real Time Big Data divulgada em 28 de agosto). A mesma pesquisa aponta que Cristina está em quinto lugar nas intenções de voto para o Senado, empatando com o quarto, o terceiro e o segundo colocados (considerando a margem de erro). Já que este ano serão eleitos dois senadores, o sinal que a pesquisa mostra é que Cristina está no páreo.

Para a referida pesquisa, a Real Time Big Data entrevistou 1.600 eleitores do Paraná de 24 a 27 de agosto de 2026. A pesquisa tem nível de confiança de 95%, margem de erro de 2 pontos percentuais e foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número PR-07845/2026.

Deixe um comentário