
Talvez você já tenha ouvido falar sobre João Campos (PSB), ex-prefeito do Recife e político muito popular. Há um tempo considerável ele é tido como um dos grandes nomes da esquerda e foi líder nas pesquisas de intenção de voto para governador de Pernambuco. A vitória dele talvez já tenha sido dada como certa, porém o jogo virou. E o jogo em Pernambuco influenciará as eleições presidenciais de 2030.
Em 2022, Raquel Lyra (PSD) venceu Marília Arraes (Solidariedade). Para essa empreitada, provavelmente contou com parte dos votos da direita (Anderson Ferreira, o candidato do PL, ficou em terceiro lugar). Agora, o PL não tem candidato a governador, então Raquel vai para o mano a mano contra João Campos num primeiro turno que antecipa o segundo — se houver segundo turno.
A virada de Raquel sobre João nas pesquisas é um dos fatos mais curiosos do período pré-eleitoral. A governadora faz acenos ao presidente Lula e certamente terá um caminhão de entregas para apresentar nas propagandas de rádio e TV. Nesse cenário, seu favoritismo cresce.
O que talvez você não tenha ouvido falar é que o resultado da eleição em Pernambuco afetará a eleição presidencial de 2030. Com a história que está construindo, caso vença, Raquel Lyra provavelmente será a segunda mulher mais forte da política brasileira (atrás apenas de Michelle Bolsonaro). Governadores em segundo mandato são naturais presidenciáveis, então o nome dela passará para a prateleira de cima da política nacional.
Uma mulher nordestina com larga experiência no Poder Executivo (duas vezes prefeita de Caruaru e duas vezes governadora) é um perfil muito valioso, seja para presidente ou vice.
Do outro lado, uma vitória de João Campos o colocaria entre os presidenciáveis de esquerda. Existem poucas figuras emergentes na esquerda brasileira com a estatura que ele tem. Os governadores petistas Elmano de Freitas (Ceará), Rafael Fonteles (Piauí) e Jerônimo Rodrigues (Bahia) também podem ser presidenciáveis, contudo, ACM Neto é favorito contra Jerônimo, Ciro Gomes tem chance de vencer Elmano e, de maneira geral, nenhum dos três tem o frescor de João e sua popularidade, a qual transcende as entregas de governo e alcança um lado mais midiático da política.
Mas o cenário também depende da eleição presidencial deste ano. Se Lula vencer, poderá levar João Campos para ser ministro, caso ele perca para Raquel. Assim, a derrota não o impediria de ser o principal nome da esquerda para 2030.
Se Lula perder e João perder, é quase game over para o ex-prefeito, que ficaria sem máquina pública até as próximas eleições gerais. Se os dois vencerem, João precisaria superar a concorrência dos demais governadores de esquerda (o que suponho não ser um grande desafio, dado que já possui boa popularidade e um ar de “renovação”).
Mesmo no cenário perde-perde, Raquel ainda teria valor para voos mais altos. Com ela e Lula vencendo, talvez ela se torne automaticamente a próxima presidenciável do PSD. Caso o vencedor seja Flávio Bolsonaro, Caiado ou Zema, a situação muda um pouco, pois acredito que Ratinho Junior, governador do Paraná e também do PSD, ocupará algum espaço na Esplanada dos Ministérios. Assim, ambos seriam presidenciáveis.
Essa minha crença vem do fato de que Ratinho foi parte do grupo de governadores de direita que formava uma “direita alternativa”. Ele, Zema, Tarcísio de Freitas e Caiado tiveram alguma proximidade. Fora que Ratinho provavelmente se empenhará no segundo turno da campanha presidencial (caso haja segundo turno), o que tende a gerar dividendos políticos.
O duelo entre Raquel Lyra e João Campos é a disputa entre o futuro do centro e o futuro da esquerda.
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