Bolsonarismo, radicalismo e 2022

Foto: Isac Nóbrega/PR

Nas eleições presidenciais de 2018, o radicalismo devorou os políticos moderados e mais ao centro — como Ciro Gomes (PDT) e, de modo mais agudo, Geraldo Alckmin (PSDB) — por dois motivos principais: o primeiro, o cansaço da população diante da política tradicional, e o segundo, ações personalistas dos dois polos mais poderosos.

O primeiro caso se arrasta, muito em função de decisões questionáveis do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, as quais fortalecem o bolsonarismo, enquanto o segundo caso continua sendo promovido pelos mesmíssimos dois polos. O PT ainda cultua a figura de Lula que, apesar de ter perdido poder após sair da cadeia, aparece frequentemente nos noticiários. E quando Lula não consegue se promover sozinho, Bolsonaro o ajuda.

Em meio à crise EUA/Irã, no início de 2020, o presidente fez questão de citar Lula mais de uma vez, sem absolutamente nenhuma necessidade, diria eu que até fazendo um comentário diplomaticamente perigoso. Por que fomentar um conflito como esse? Qual é a necessidade de implicar tão infantilmente com um ex-presidiário? É um líder político, sim, mas de um dos partidos mais corruptos da história do Brasil. Tendo verdades tão contundentes ao seu lado, a picuinha promovida por Bolsonaro parece ter um interesse eleitoral.

O bolsonarismo se caracteriza por ser um sentimento, não uma corrente de pensamento específica. Em seu tripé existe um liberalismo até a página 2, uma pauta de costumes que mais se resume a boicotar certas produções culturais e políticas mais rígidas de segurança pública. Neste sentido, não é exagero dizer que o bolsonarismo é composto por uma carapaça durona, honesta e recheada de frases de efeito.

Para que um governo se perpetue no poder convivendo com debates civilizados, ele precisa ter boas ideias bem desenvolvidas e um discurso claro, confiável. Em outras palavras, para um governo continuar no poder, é preciso produzir ideias consistentes que vençam os debates civilizados. Ou então, vencer pela emoção.

Embora tenha melhorado seu comportamento, Bolsonaro sempre faz das suas, diz aquilo que não precisa e arranja encrencas quase inacreditáveis, o que chamo de Fator Bolsonaro. Quando confrontado por um político com bom temperamento e pensamentos claros no sentido de uma gestão pública eficiente, o Fator Bolsonaro faz derreter o poder político do presidente.

Em um embate com João Doria (PSDB) ou Luciano Huck, Bolsonaro certamente teria problemas. Doria governa o maior reduto eleitoral do país e, apesar de sua rejeição na capital e sua óbvia sede de poder, é a união máxima da gestão eficiente, o discurso firme — que não é frouxo nem radical — e o mais importante, a capacidade de jogar com todos sem perder a identidade de sua bandeira principal. Eis as vantagens de ser liberal na economia e nos costumes.

Doria hoje é a melhor opção que o Centrão tem para as eleições presidenciais de 2022 e a maior ameaça para Bolsonaro, além da própria incompetência de seu governo. Sabendo disso, a melhor forma de o presidente garantir sua reeleição é tornando o terreno favorável, por meio do conflito. Em síntese, Bolsonaro mantém o discurso inflamado, atiça a esquerda para que ela se torne um inimigo real e sugere a si mesmo como o único capaz de enfrentá-la.

Daí, a militância faz o trabalho pesado de limar o poder eleitoral dos candidatos de centro com o “nós contra eles”. Num cenário de Bolsonaro VS PT, tendo em vista o controle da máquina pública e o trabalho competente dos ministérios da Justiça e da Economia, a reeleição de Bolsonaro é quase certa.

O Brasil não precisa do PT, nem o Bolsonaro de fato precisa, mas a ambição pelo poder é irmã da irresponsabilidade. O preço pago pela reeleição do presidente pode ser o fortalecimento dos grupos criminosos que anseiam restringir liberdades e a prorrogação da patética polarização entre os ignorantes de direita e os de esquerda.

O Brasil continua na corda bamba.

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