Por que não vou votar no Moro?

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A ideia de terceira via existe a partir da noção de que há duas forças amplas que dominam o debate e conduzem o público a escolher entre uma delas. A opção que não é nem uma nem a outra é a terceira via.

De 2002 a 2018, o PT era a força dominante e seu antagonista era o PSDB, mais por inabilidade dos demais do que por competência tucana. Quando o então candidato Bolsonaro surgiu concentrando o antipetismo, ele tornou-se a terceira via. Nem PT, nem PSDB.

Um dos principais impulsionadores de Bolsonaro foi a negação da política, a crença em um sujeito que saia dando cabeçada nos maus políticos. Na esteira da moralização da política, Bolsonaro fez promessas que não poderia cumprir e pagou o preço com a queda de sua popularidade.

Embora o presidente tenha entendido que o caminho da briga com Centrão é tortuoso e pouco eficiente, parte do eleitorado exige que ele seja intransigente e iguala seus erros aos erros dos petistas. Essa falsa equivalência entre Bolsonaro e Lula fortalece o ex-presidente e abre margem para a busca por uma terceira via.

Longe de mim defender Bolsonaro como o presidente ideal, mas a saga dos moristas passa muito pelo absurdo de equivaler incompetência, rachadinha e direitos imorais aos maiores escândalos de corrupção que este país já viu.

O pilar central da defesa de Sergio Moro é o combate à corrupção, que foi supostamente a causa de sua saída do governo. Essa saída é um ponto importante para avaliar a moralidade do presidenciável.

Embora o vídeo da reunião ministerial sinalize que Bolsonaro considerava as indicações para a Polícia Federal uma forma de proteger sua família, a frase estranha (como costumam ser as frases do presidente) não é clara o suficiente para que possamos concluir que ele pretendia acobertar a corrupção do Flávio.

Além disso, quando foi depor, Moro afirmou que não acusou o presidente de ter cometido crime. O ex-juiz não tinha provas, apenas uma alegação de intenção. Quando convoca uma entrevista coletiva para colocar em dúvida a idoneidade do presidente, Moro não age em prol da justiça, age em prol de si mesmo.

Por mais bela e moral que seja a intenção de deixar o governo por suspeitar de seus interesses, Moro a anula no momento em que a usa para catapultar sua carreira política. O oportunismo esgota a moralidade.

A demissão midiática torna duvidoso o caráter de Moro e sua relação com o presidente apresenta algumas possibilidades. O período no Ministério da Justiça e Segurança Pública deixou claro que Moro não é tão armamentista quanto Bolsonaro e que não possui compromisso com a rejeição de ideias esquerdistas.

Bolsonaro já falou que sua relação com o ministro Paulo Guedes envolve concessões de ambas as partes e frisou que Moro não cedia. Fica evidente que o então ministro e o presidente viviam em queda de braço por princípios.

É provável que Moro tenha decidido sair do governo por causa da queda de braço. Prova disso é ter dito que permaneceria no cargo caso Bolsonaro voltasse atrás e não demitisse Maurício Valeixo, então diretor-geral da PF.

Uma hipótese adicional que pode ter impulsionado o rompimento da dupla é a percepção do Moro de que não seria indicado para o STF. Por isso ou por aquilo, sem prova de corrupção, ele fragilizou o governo federal e quebrou o tripé economia/costumes/segurança, essência do bolsonarismo.

O mais importante para Moro é o bem geral da nação ou sua meta de carreira? O momento e as circunstâncias da demissão apontam para a segunda opção.

Um problema moral do candidato Moro é o jeito que ele se entrega para o marqueteiro. Em um tuíte, o perfil de Moro associou Bolsonaro e seus apoiadores à milícia. Se Moro pensa assim, fez vista grossa para isso e não mencionou na demissão, o que é um erro. Se não pensa, abraçou a política da mentira e da falsidade.

A mesma política que ele pratica quando culpa Bolsonaro por tudo e não é tão incisivo em suas críticas ao STF quanto deveria. No programa Pânico, da Jovem Pan, ele chegou ao absurdo de culpar Bolsonaro pela liberdade de Lula.

Moro sabe que o ministro Fachin anulou o julgamento do Lula e que a mudança no entendimento do STF sobre a prisão após condenação em 2ª instância soltou o ex-presidente, mas prefere criticar Bolsonaro em vez de dizer a verdade. Como confiar a presidência da República a alguém assim?

Além do fator moralidade, existe a ideologia. Até onde sei, Moro nunca foi um defensor enfático da liberdade, o que me faz suspeitar de que sua postura parará no tucanismo, afinal, o marqueteiro sabe que Moro precisa do apoio dos conservadores e dos liberais.

Mesmo desconsiderando os princípios, o ex-juiz carrega um defeito que torna sua intenção uma aventura: a falta de experiência política. A única experiência que possui é o período que passou no Ministério da Justiça e Segurança Pública. A presunção de Moro é grande o suficiente para ele se colocar como a melhor alternativa para a presidência da República em sua primeira candidatura.

Como alguém pode escolher para o principal cargo da nação um cidadão que praticamente não tem experiência, sequer como candidato? Tendo opções mais ao centro, como Ciro Gomes e Doria, é impensável supor que o melhor nome é o inexperiente Moro, que acabou de começar a defender princípios e ideias de forma mais clara.

O ideal é que o presidente da República seja um exemplo moral, um notável administrador e defensor de princípios como a propriedade privada, a gestão eficiente e o respeito ao serviço público. O ex-juiz Sergio Moro falha nos três quesitos.

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