Projeções para o bolsonarismo em 2022

Foto: Marcos Corrêa/PR

A corrida eleitoral de 2022 não começou oficialmente, mas os futuros candidatos já estão se movimentando, traçando estratégias e buscando seus potenciais eleitores. O pleito ocorrerá daqui a um ano e muita água vai rolar até o dia da votação. Nesse ambiente de muitas projeções e absurdas pesquisas de intenção de voto, darei meus palpites.

O mais importante para entender 2022 é entender que a perda de popularidade do presidente Bolsonaro não significa que o eleitorado aglutinado por ele deixou de existir. A “onda conservadora”, que, segundo os institutos de pesquisa, surgiu misteriosamente na reta final das eleições de 2018, chegará de novo à praia do Poder Público.

A massa que elegeu Witzel (Rio de Janeiro), Zema (Minas Gerais), Moisés (Santa Catarina) e Denarium (Roraima) tenderá a escolher seus governadores na mesma linha.

O Rio de Janeiro é um estado carente de lideranças políticas e viu seus últimos governadores serem presos e, no caso de Witzel, destituído do cargo. Nomes menos perceptivelmente políticos serão os mais fortes. Se o indicado de Bolsonaro ao cargo for o vice-presidente Mourão, este provavelmente vencerá. Repetindo 2018, é capaz até de o senador Romário ter alguma chance.

O desempenho de Zema, sua postura e o poder da máquina pública devem garantir que se reeleja no primeiro turno. Moisés enfrentou problemas maiores, incluindo a abertura de dois processos de Impeachment, e deve ter mais dificuldade para se manter no cargo. Se houver uma aliança entre Moisés e Bolsonaro, a reeleição deve ocorrer, pois Santa Catarina se mostrou esmagadoramente bolsonarista em 2018.

Denarium se filiou ao PP em setembro, sinal de que provavelmente seguirá sendo apoiador do presidente. Sei pouco sobre seu governo, mas ele não ficou tão perto da corda bamba quanto Moisés, o que é um ponto relevante para considerar a possibilidade de reeleição.

Reeleição é mais fácil do que eleição. É intenção do ministro Onyx Lorenzoni (Trabalho) se candidatar ao governo do Rio Grande do Sul. Essa pretensão é antiga e, apesar do cargo de “amigo do presidente”, Lorenzoni não é popular nem perceptivelmente habilidoso. Passou pela Casa Civil, Ministério da Cidadania e ganhou o recém-criado Ministério do Trabalho, sempre sendo inexpressivo.

Lorenzoni não é desconhecido do público, mas tem mais imagem do que ações, embora não chegue ao nível Abraham Weintraub. Lorenzoni só teria chance de vencer a eleição caso o desempenho de Bolsonaro fosse espetacular. Um ministro mais capacitado para uma disputa majoritária é Tarcísio de Freitas (Infraestrutura).

Tarcísio é o segundo principal nome da Esplanada, abaixo apenas de Paulo Guedes. Ele não se envolve em polêmicas, tem jogo de cintura político, é um ministro evidentemente técnico e possui baixíssima rejeição, considerando sua popularidade. Tarcísio é a aposta de Bolsonaro para o governo de São Paulo, uma missão difícil.

Os principais candidatos são o vice-governador Rodrigo Garcia e o ex-governador Geraldo Alckmin. Um tem a máquina na mão e o outro simboliza a paixão dos paulistas pelos tucanos que governam o estado há três décadas. O enfraquecido Alckmin (que teve 4% dos votos nacionais em 2018) deve superar Garcia por ser mais conhecido que ele e menos rejeitado que o governador João Doria.

Por outro lado, o que fez Doria vencer Márcio França por um nariz foi a onda conservadora, a onda de eleitores que queriam algo diferente. Neste cenário de tucano popular, tucano impopular e petista, há margem para uma terceira via. Existe uma chance considerável de que o voto útil leve um candidato da terceira via ao segundo turno e Tarcísio de Freitas tem um perfil compatível, com baixa rejeição, alta competência e feitos para mostrar ao público.

Tendo Alckmin como concorrente, a chance de qualquer outro vencer é pequena. Se o ex-governador arriscar ser vice de Lula, Tarcísio passa a ter chances reais de vitória. França é um candidato forte, mas não tanto quanto Alckmin.

O Senado, que tem dado muita dor de cabeça ao Executivo, é a prioridade de Bolsonaro. Para São Paulo, fala-se numa aposta em Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente. Salles é popular entre os bolsonaristas, mas a causa ambiental o torna um dos piores quadros para 2022. Uma das armas favoritas da imprensa contra o presidente é a ocorrência de queimadas e o trabalho do governo para desproteger a natureza.

Salles é, resumidamente, o oposto de Tarcísio. As pessoas tem nada contra o Tarcísio e nada a favor de Salles. Mesmo enfrentando o eterno candidato Skaf e uma nova liderança petista, a vitória de Salles é quase impossível. Com Tarcísio se lançando ao governo, não restam nomes relevantes para o Senado, exceto um: Janaina Paschoal, a deputada mais votada da história.

Janaina é chamada de louca, ridicularizada por petistas e bolsonaristas, mas possui um alcance gigantesco, é ponderada, tem jogo de cintura político e um elemento essencial: independência. Um dos grandes problemas para todo candidato bolsonarista é que esse rótulo traz consigo a enorme rejeição do presidente. Nesse sentido, mesmo que bolsonaristas desgostem, a Janaina é capaz de atender simultaneamente à terceira via e ao Bolsonaro.

O empresário Luciano Hang não descarta uma candidatura em 2022. Dado o óbvio interesse do mercado e a grande projeção de Hang, creio que ele seria bem sucedido, tanto para senador quanto para governador de Santa Catarina.

Os ministros Fábio Faria (Comunicações) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) disputam uma candidatura ao Senado pelo Rio Grande do Norte. O trabalho desenvolvido na região e a popularidade superior a de seu concorrente cacifam Marinho para o pleito. Seja Marinho ou Faria, o resultado depende em grande parte do desempenho do governo Bolsonaro.

A maioria das candidaturas bolsonaristas têm a probabilidade de êxito diretamente proporcional ao sucesso do governo Bolsonaro. 2021 está perto de terminar e as reformas tributária e administrativa não foram aprovadas. Lembrando que, há tempos, Paulo Guedes disse que a reforma administrativa estava pronta e não fora enviada ao Congresso por opção política.

Os Correios estão encaminhados, mas não foram privatizados. A TV Brasil claramente não está mais nos planos desestatizantes do presidente. A Eletrobrás segue a passos lentos e fala-se em privatizar a Petrobrás, provavelmente para acalmar o mercado. O liberalismo não nos foi entregue como prometido, o toma lá dá cá não acabou e não há uma perceptível política nacional de segurança pública.

Bolsonaro prometeu muito e entregou pouco. Quem queria muito teve o apoio convicto reduzido. Isso independe de as escolhas do presidente serem corretas ou não. O prognóstico econômico não é positivo e reformas não costumam avançar em ano eleitoral. Mesmo que a equipe econômica trabalhe bem, as bobagens do presidente sabotarão os candidatos bolsonaristas.

Desse modo, os principais candidatos passam a ser aqueles menos vinculados à imagem do presidente. O cenário de estagnação econômica não afeta o potencial de vitória de Tarcísio e Janaina Paschoal, mas dificultará ao extremo a meta bolsonarista de obter uma base sólida no Congresso.

A presidência da República é um tanto mais simples. Bolsonaro VS Lula VS terceira via. Bolsonaro se garante no nós contra eles, desde que a percepção popular do momento econômico seja favorável. Ele tem a faca e o queijo na mão com o apoio da Câmara, mas o estilo direto, sem papas na língua, confere ao presidente uma irresponsabilidade que certos veículos de imprensa têm prazer em explorar diária e extensivamente.

A briga de Bolsonaro com a imprensa potencializa os pontos negativos de seu governo e mascara os positivos. A vitória de Lula virá caso a crise de imagem do Bolsonaro seja superior à marca da corrupção lulopetista.

Tendo seus 20% de apoiadores fiéis e a máquina pública na mão, é altamente provável que Bolsonaro consiga ao menos os votos necessários para chegar ao segundo turno. Surfando nas comparações entre sua gestão e a atual, além dos 20% de apoiadores fiéis, Lula possui grande chance de chegar ao segundo turno.

A única forma de tirar Lula do segundo turno é com o Governo Federal fazendo a lição de casa e o presidente assumindo uma postura de chefe de Estado. Nesse cenário, Bolsonaro se reelegeria em primeiro turno. O Fator Bolsonaro torna esse rumo impossível.

Graças ao STF, Lula retomou uma força política que havia perdido em 2018. A tendência é a esquerda flutuar ao redor dele e a terceira via é composta em parte pela “onda conservadora”, que jamais votaria em Ciro Gomes. O único nome viável para esse tão falado grupo de eleitores é Sergio Moro.

Moro e Bolsonaro dividem a direita e atrapalham um ao outro, mas Bolsonaro tem um potencial muito maior de avançar sobre o terreno petista. Moro incomodará e pode até tirar a primeira posição do atual mandatário, mas a força da aliança entre o Executivo e o Legislativo é um muro quase intransponível. “Quase” porque podemos esperar de Bolsonaro as piores lambanças.

Os demais candidatos são irrelevantes. Eu apostava muito no Doria, mas ele é antipático e a dinastia populista prosseguirá. Considerando uma chapa Lula/Alckmin, vejo um futuro positivo para o Brasil.

Bolsonaro, Moro e Doria possuem um compromisso com o liberalismo que levará o país a crescer. Sim, Bolsonaro ficou devendo, Moro provavelmente defende o que é conveniente e o Doria defende o que for mais vantajoso para a imagem dele, mas, ainda assim, o povo e os legisladores podem cobrar medidas liberais dos três.

Por outro lado, se Lula vencer, Alckmin será um freio para políticas econômicas nocivas. Se a situação piorar, em caso de Impeachment, teremos um presidente tucano com experiência na administração pública. Com o potencial eleitoral do União Brasil e do tripé bolsonarista (PP, PL e Republicanos), a queda do petista será uma possibilidade constante.

A possibilidade de vitória do Tarcísio e do Zema também são bons sinais. Especialmente Zema, um natural presidenciável para 2026.

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