O piso da oposição e o desconhecimento de Ratinho Junior

Hoje (30), o Paraná Pesquisas divulgou um levantamento acerca do grau de conhecimento e o potencial eleitoral de alguns possíveis candidatos à presidência da República. Os nomes testados foram: Lula, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ratinho Junior. Nenhum resultado foi bombástico, mas há alguns números interessantes.

Grau de conhecimento

Havia três opções para os entrevistados: “não conhece”, “conhece apenas de ouvir falar” e “conhece bem”. Ratinho é quem pontua mais como “não conhece” e quem pontua menos como “conhece bem” (respectivamente, 31,3% e 18,9%), ou seja, é o menos conhecido.

Os outros números são:

Conhece bem: Lula – 82,1%; Flávio – 34,9% e Tarcísio – 32,8%.

Conhece apenas de ouvir falar: Lula – 16,1%; Flávio – 52,7%; Tarcísio – 44,4% e Ratinho – 49,8%.

Não conhece: Lula – 1,9%; Flávio – 12,4% e Tarcísio – 22,7%.

Esses dados são difíceis de analisar. Como o desconhecimento total de Ratinho é o maior, a campanha dele lidará com uma imagem mais “escrita do zero”, para o bem e para o mal. No outro extremo, talvez as opiniões sobre Lula sejam as mais cristalizadas dentre os quatro, dado o altíssimo percentual de entrevistados que diz conhecê-lo bem.

Com uma taxa de desconhecimento total baixa, Flávio partirá do zero enfrentando mais narrativas, favoráveis e negativas. Isso pode significar simultaneamente um “empurrão” dado pelo sobrenome e uma âncora causada, em parte, pelas acusações de rachadinha (as quais foram arquivadas pela justiça).

No fim das contas, isso não significa vantagem ou desvantagem para nenhum dos possíveis candidatos da oposição. Essas informações servem mais para as equipes ajustarem o marketing. Para Lula, o grau de conhecimento não é exatamente confortável, mas ele já venceu Bolsonaro sendo amplamente conhecido, então nada impede que repita o feito.

Potencial eleitoral

Já critiquei o Paraná Pesquisas por não direcionar perguntas a eleitores específicos, todavia, desta vez direcionaram. A pergunta sobre o potencial de voto foi feita aos que disseram conhecer bem o político ou apenas de ouvir falar.

As respostas possíveis eram: “com certeza votaria nele”, “poderia votar nele”, “não votaria nele de jeito nenhum” e “não sabe”. A compreensão devida exige uma separação digna de um problema matemático.

Lula

Cerca de 98% dos entrevistados conhecem Lula. Destes, 31,5% votariam nele com certeza, 22,3% poderiam votar nele e 45,3% não votariam nele de jeito nenhum (tem “não sabe/não opinou”, mas em todos os casos é menos de 1%).

O mais interessante é que ele teve o maior espaço amostral e ainda assim apresentou os maiores números de “com certeza” e “de jeito nenhum”. Com 45% de rejeição ao presidente, a oposição tende a ter um patamar mínimo de votos altíssimo (o que não significa que a oposição tende a vencer).

Para tornar os números mais palpáveis, eu considerei “100” o número total de entrevistados e partir daí extraí os números correspondentes aos percentuais apontados pela pesquisa. Dessa forma, o resultado é (com valores arredondados para baixo):

Com certeza: 30 eleitores.

Poderia: 21 eleitores.

De jeito nenhum: 44 eleitores.

Flávio Bolsonaro

Vou deixar os percentuais ao final do texto, para quem quiser conferir. Os números vão seguir sempre a lógica que usei no caso do Lula.

Com certeza: 23 eleitores.

Poderia: 24 eleitores.

De jeito nenhum: 39 eleitores.

Tarcísio de Freitas

Com certeza: 11 eleitores.

Poderia: 37 eleitores.

De jeito nenhum: 27 eleitores.

Ratinho Junior

Com certeza: 3 eleitores.

Poderia: 41 eleitores.

De jeito nenhum: 23 eleitores.

Interpretando os números

Juntando “com certeza” e “poderia” chegamos ao potencial eleitoral máximo de cada um no momento, considerando os dados da pesquisa. Lula chega a 51, Flávio a 47, Tarcísio a 48 e Ratinho a 44. Pensando no “de jeito nenhum” como o piso do voto contrário, qualquer um enfrentando Lula já parte mais ou menos de 44 votos (em 100 totais).

Como existem as pessoas que votam branco, nulo ou se abstêm, é possível que a oposição vença só de converter todo o potencial eleitoral atual, contudo, Lula tem uma vantagem razoável e a mesma lógica de conversão do potencial se aplica a ele (com uma diferença essencial: parte desse eleitorado já votou em Lula em 2022, do contrário ele não teria vencido).

É interessante que o potencial de Ratinho já está num nível competitivo, mesmo ele sendo desconhecido para quase um terço do eleitorado. Isso significa muito campo para desbravar, porém Ratinho tem um longo caminho pela frente até sair dos 3 votos consolidados (em um total de 100).

Por último, Tarcísio ter mais potencial do que Flávio não é uma surpresa.

Considerações finais

O levantamento embasa algumas conclusões que já podiam ser tiradas de pesquisas anteriores, como os pisos e os tetos do governo e da oposição, o que sinaliza que tais conclusões estão corretas. Mais do que isso: não é estranho supor que o cenário de 50,9% a 49,1% (resultado do segundo turno de 2022) seria o resultado caso a eleição fosse hoje.

São dados complicados de avaliar, afinal os votos brancos, nulos e abstenções dificultam as projeções, mas esse texto tem um papel importante: atentar o leitor (e eu) ao fato de que a pesquisa precisa ser lida com muito cuidado.

Eu podia só somar porcentagens, chegar e dizer que Ratinho é o candidato com o maior potencial eleitoral, o que estaria certo do ponto de vista relativo e errado do ponto de vista absoluto. Com mais percentual do que o Tarcísio (65,3% contra 63,2%), Ratinho alcança um número real menor (44 contra 48).

Percentuais de potencial eleitoral

Lula: com certeza votaria – 31,5%; poderia votar – 22,3%; não votaria de jeito nenhum – 45,3%.

Flávio Bolsonaro: com certeza – 26,3%; poderia – 28,1%; de jeito nenhum 44,7%.

Tarcísio de Freitas: com certeza – 15,1%; poderia – 48,1%; de jeito nenhum –36,1%.

Ratinho Junior: com certeza – 5,3%; poderia – 60,0%; de jeito nenhum – 33,8%.

Informações técnicas

As entrevistas (pessoais, domiciliares e presenciais) foram realizadas pelo Paraná Pesquisas entre os dias 25 e 28 de janeiro de 2026. Foram abordados 2.080 eleitores em todo o Brasil. O grau de confiança da pesquisa é de 95% e a margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o n.º BR-08254/2026 para o cargo de Presidente.

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