O que os brasileiros querem em um vice-presidente?

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Em 26 de dezembro, o Paraná Pesquisas divulgou um levantamento sobre a opinião dos brasileiros em relação ao que preferem em um vice-presidente. No artigo sobre “o vice da direita”, eu defendi que a senadora Tereza Cristina seria um bom nome, e é exatamente nessa direção que a pesquisa aponta.

24,4% dos entrevistados escolheu a opção “que seja uma mulher, para trazer um olhar feminino ao governo”. Para 22,3% dos entrevistados, o importante seria ser um representante do setor produtivo/agronegócio, para focar na economia. Tereza Cristina é mulher, engenheira agrônoma e foi ministra da Agricultura durante o governo Bolsonaro. É impressionante o quanto a pesquisa praticamente estampa o rosto dela como “vice ideal”.

As outras opções eram: político experiente do Nordeste (13,2%), alguém de total confiança/família de Jair Bolsonaro (12,2%), alguém ligado à religião e defesa da família (9,9%), é indiferente/tanto faz (9,1%) e não sabe/não opinou (8,8%).

Poderíamos apontar o número baixo de entrevistados que prefere alguém da família Bolsonaro ou conservador, mas existe aqui um “pulo do gato”. A pergunta do Paraná Pesquisas foi “Pensando no candidato que o(a) Sr(a) escolheu votar para Presidente, qual destas características o(a) Sr(a) considera mais importante para a escolha do seu Vice-Presidente?”.

Se o entrevistado escolheu votar no Flávio Bolsonaro, é natural que não veja tanta necessidade de ter um vice de perfil evangélico ou ligado à família Bolsonaro. Ou seja, a pesquisa não significa que Michelle Bolsonaro é necessariamente uma vice ruim.

Por outro lado, a pouca menção a “político experiente do Nordeste” é um recado curioso. Não há grandes possíveis vices além de Rogério Marinho ou Ciro Nogueira e o Paraná Pesquisas identificou que é uma característica que pesa pouco para o eleitor fora do Nordeste. Da mesma forma, no Nordeste pesa tanto ser mulher quanto ser de lá.

Isso cria um dilema: escolher o vice pensando em atrair o voto do Nordeste (no caso da direita, a região onde tem menos força) ou escolher outro nome para tentar ampliar a votação no Sudeste, que é a região com o maior número de eleitores (e que teve o menor percentual de entrevistados preferindo o critério “ser mulher”).

Só que a escolha das possíveis respostas afeta o resultado. Lendo a pesquisa não é possível saber se o eleitor prefere um vice de dentro da política ou de fora, se prefere um nome ligado à segurança pública ou à economia. É importante observar o que pesquisa grita (Tereza Cristina) sem esquecer do que ela não descarta (Michelle e Caiado).

A opção óbvia

Eu gosto do instituto, mas preciso criticá-lo mais ou menos pelo mesmo motivo que o critiquei na análise da pesquisa presidencial de dezembro. Aqui, o Paraná Pesquisas fez a pergunta “Para vencer as eleições contra o atual governo (PT/ Lula), o candidato a Presidente da oposição deveria escolher um candidato a Vice Presidente que”. As alternativas e os resultados foram:

Priorize a economia, sendo um empresário ou técnico, sem ligação forte com política ideológica (43,2%)

Traga votos de quem não é de direita, sendo um político mais moderado e de centro, mesmo que isso desagrade parte da base bolsonarista (19,1%)

Garanta os votos da direita, sendo um conservador fiel a Bolsonaro, mesmo que isso afaste eleitores de centro (12,8%)

Não sabe/não opinou (25%)

Novamente, o instituto aparentemente não fez distinção entre os apoiadores do governo e os apoiadores da oposição, o que contamina o resultado. O número altíssimo de “não sabe/não opinou” ainda é bem menor do que a pontuação que Lula costuma alcançar nas simulações de primeiro turno (cerca de 36%). Onde foram parar os 10% que faltam?

Bom, eles podem ter ido para a primeira opção, que é uma resposta óbvia e talvez até constranja o entrevistado a escolhê-la. Soaria egoísta dizer que prefere um vice por motivos eleitorais quando uma das opções é “politicamente correta” e desagradável de contrariar (na minha opinião).

Acredito que seria interessante dividir essa pergunta em duas. Uma só com as escolhas por conveniência eleitoral (atrair o centro ou garantir os votos da direita) e a outra com aspectos técnicos (já que uma das opções é um vice ligado à economia, poderia ter um “ligado à segurança”).

Da forma como foi feita a pesquisa, as respostas a essa pergunta trazem poucas reflexões ou recados.

Observação: as entrevistas foram realizadas pessoalmente entre os dias 18 e 22 de dezembro. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

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