Os motivos para a derrota de Bolsonaro

Reprodução/Facebook

O resultado das eleições presidenciais de 2022 pode e está sendo colocado na conta de múltiplos fatores. Eu poderia culpar a oposição ferrenha de parte da imprensa, da classe artística e da comunidade internacional. Eu poderia culpar a crise econômica gerada pelo lockdown, os tiros de Roberto Jefferson, a arma empunhada pela deputada Carla Zambelli, o tiro no pé que foi a denúncia sobre as inserções de rádio e a atuação do TSE.

Tudo isso é discutível e tem seu impacto, mas o principal motivo para a derrota de Bolsonaro foi a pandemia. Não exatamente o que ele fez, mas sim o que ele disse. Detalhar esse motivo e compreender o resultado envolve colocar-se no lugar do outro.

Como apoiador do presidente, eu tive vontade de publicar uma imagem que fala mal da maioria da população. Também entendo aqueles que se disseram “em luto pelo Brasil”, mas tal postura é uma ofensa àqueles que genuinamente consideram o Bolsonaro responsável por vítimas da covid-19.

O rótulo de genocida é absurdo, só que há um caminho do meio entre a não responsabilidade e a responsabilidade total. Esse caminho é a condução midiática da pandemia. Milhões de brasileiros odeiam o presidente e até usam outros argumentos, mas a raiz desse ódio é o fato de Bolsonaro mostrar-se indiferente ao vírus.

O lockdown foi um crime contra a humanidade e gestores públicos como o falecido prefeito Bruno Covas (SP) tomaram medidas óbvia e completamente incorretas, como o rodízio rigoroso e a redução do horário de funcionamento dos estabelecimentos, ideias que só fariam aumentar as aglomerações em vez não diminuí-las.

Bolsonaro não só criticava o lockdown como ia para o extremo oposto, promovendo aglomerações e zombando do uso de máscaras. Raras foram as vezes em que o presidente incentivou o distanciamento físico. Pelo que me consta, suas falas tinham um tom protocolar, como quando, na época da eleição, lamentou as mortes do período pandêmico.

Enquanto prefeitos e governadores desesperados faziam loucuras administrativas, analistas recalculavam o pico (lembra do apresentador Marcos Mion?) e outras pessoas projetavam cenários com milhões de mortos, Bolsonaro parecia não se importar com o vírus.

Além de ser um dos poucos contrários ao lockdown, o presidente, de forma sistemática e semanal, defendeu tratamentos paliativos controversos e desdenhou da vacina. A vacina do Doria. A vacina chinesa. A vachina. A mesma vacina que ele passou a chamar de vacina do Brasil assim que fora aprovada pela ANVISA.

Enquanto pessoas morriam diariamente de covid-19, Bolsonaro dava cloroquina para uma ema e soltava frases revoltantes. Vejamos algumas:

“E daí?”
“Sou Messias, mas não faço milagre”
“Não sou coveiro”
“Quem é de esquerda toma tubaína, quem é de direita toma cloroquina”
“No meu gabinete é proibido usar máscara”

Talvez o leitor bolsonarista ache que essas frases podem ser justificadas pela pressão da imprensa ou da pandemia em si, mas imagine o ponto de vista de alguém que não é simpático ao presidente e era amigo ou fã de uma pessoa que morreu de covid-19. Percebe o quão cruel Bolsonaro soa? A meu ver, é por isso que ele perdeu.

Essas palavras machucaram emocionalmente as pessoas. O presidente passou meses abrindo essa ferida e ela ficou tão profunda que não haveria tempo para reverter o resultado: ódio.

Bolsonaro foi o segundo candidato mais votado da história do primeiro e do segundo turno. Contrariando as expectativas (e várias pesquisas), sua votação saltou de 51 para 58 milhões. A diferença para o Lula, que era de 6 milhões, caiu para 2 milhões.

O esforço hercúleo da campanha do presidente e a metralhadora populista de transferência de renda fizeram algo incrível, mas o único presidente a perder a reeleição só percebeu o dano causado por suas falas quando já era tarde demais.

Mesmo durante a campanha, Bolsonaro não assumia de forma contundente que errou na comunicação durante a crise sanitária. Talvez hoje ele pense que a eleição foi decidida pela memória do governo Lula ou pela falta de conhecimento dos jovens, mas a verdade é que ele perdeu por sua falta de sensibilidade.

Claro que outros fatores são relevantes, mas Bolsonaro se destruiu com erros midiáticos insistentes, os quais solidificaram a crença de que ele é um monstro.

Se ele fosse menos fanfarrão, repreendesse os excessos dos bolsonaristas, mostrasse seriedade ao conduzir o país durante a pandemia e evitasse declarações absurdas, não precisaria levar o Brasil à menor taxa de homicídios desde 1992 e à menor taxa de desemprego desde 2015 para se reeleger.

Tudo aquilo que o Bolsonaro fez de positivo não é nada para quem acha que ele é responsável por uma parcela dos mortos na pandemia. Para eles, votar no Bolsonaro é como votar num assassino. Entre o assassino e o ladrão, quem você escolheria?

Corrupção é feia, mas é distante. As mortes da covid-19 são muito mais próximas.

Mesmo considerando que Bolsonaro causou mortes por sua irresponsabilidade durante a pandemia, ainda rejeito o voto no Lula, pois elegê-lo não desfaz as mortes e a gestão Bolsonaro tenderia a ser muito mais produtiva para o Brasil da próxima legislatura. Por outro lado, entendo o raciocínio de quem optou pelo 13.

Neste ponto do texto, é possível que os antibolsonaristas achem que estou passando pano e os bolsonaristas achem que estou comprando a narrativa da oposição. Meu objetivo é mostrar a quem votou no Lula que compreendo seus motivos para tal e mostrar a quem votou no Bolsonaro que não é impossível Lula ter vencido sem fraude nas urnas.

O Brasil dividido precisa de união. A agressividade e o ódio precisam ser minados. Independente do lado que você escolheu, faça um esforço para entender o outro e buscar pontos em comum. Se você tratar seu adversário como inimigo, ele também te tratará como inimigo e a guerra nunca acabará.

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